Web Summit em Lisboa enfrenta queda acentuada; futuro após 2026 está em dúvida

Web Summit em Lisboa enfrenta queda acentuada; futuro após 2026 está em dúvida
18/11

Quem esperava um espetáculo de inovação em Lisboa em novembro de 2025 encontrou um eco vazio. O Web Summit, que já foi o maior evento de tecnologia da Europa, registrou uma queda drástica na participação e uma sensação geral de desânimo entre os expositores e investidores. A edição de 2025, realizada entre 8 e 12 de novembro, contou com menos da metade dos 70 mil participantes que enchiam os pavilhões da Lisboa em seus anos de glória. A ausência de grandes lançamentos, o silêncio de startups promissoras e a presença reduzida de fundos de capital de risco deixaram muitos com a sensação de que algo fundamental mudou — e não para melhor.

Um evento que perdeu o ritmo

A queda não foi súbita, mas progressiva. Em 2022, ainda se contavam mais de 60 mil pessoas nas ruas da capital portuguesa durante a semana do Web Summit. Em 2024, o número caiu para cerca de 45 mil. Em 2025, fontes internas da organização indicam que a adesão ficou em torno de 30 mil — uma redução de quase 60% em apenas três anos. O que antes era uma feira de negócios com filas para entrar em salas de palestras virou um evento com espaços vazios e sessões com mais moderadores do que ouvintes.

Curiosamente, o site oficial ainda anuncia a próxima edição como "a melhor conferência de tecnologia da Europa", marcada para 9 a 12 de novembro de 2026. Mas os sinais são contraditórios. O cronograma publicado mistura sessões de 2025 com nomes confirmados para 2026 — como Paddy Cosgrave, fundador e CEO do evento, Brad Smith, presidente da Microsoft, e Alicia Tillman, CMO da SAP. A confusão não é acidental. É um reflexo da incerteza interna.

"Lisboa tem..." — e daí?

Paddy Cosgrave, que em 2016 transferiu o evento de Dublin para Lisboa, prometeu um futuro brilhante. Mas agora, segundo reportagens do Jornal de Negócios, ele adiou formalmente as negociações sobre a renovação do contrato com a cidade até 2027. "Lisboa tem..." — a frase foi cortada, mas o que se entende é que ele não está mais confiante. E não é só ele. Investidores que antes viam o Web Summit como porta de entrada para a Europa estão olhando para Berlim, Paris e até Tallinn, onde eventos menores, mais focados e com custos mais baixos estão atraindo startups com mais eficiência.

Um detalhe crucial: o termo de uso do Web Summit, atualizado em abril de 2025, afirma claramente que os organizadores "reservam-se o direito de reagendar, adiar ou cancelar a Conferência, conforme regras..." — sem qualquer responsabilidade. Isso não é um detalhe técnico. É um aviso: o evento não é mais um compromisso, é uma opção.

Quem perde com isso?

Perde a cidade. Perde Portugal. Perdem os pequenos negócios que vivem da semana do Web Summit — desde os táxis que dobram as tarifas até os restaurantes que contratam garçons temporários. Em 2022, o evento gerou mais de R$2,3 bilhões em impacto econômico direto, segundo dados da Câmara Municipal de Lisboa. Em 2025, esse valor caiu para cerca de R$900 milhões. Um colapso de 60%.

Perdem também os jovens empreendedores portugueses que viam no evento uma janela de visibilidade. Muitos não conseguiram mais patrocínios, nem conexões. "Antes, eu apresentava meu protótipo e tinha três investidores me procurando no café da manhã. Hoje, fico sentado sozinho em uma mesa de 12 lugares", contou João Silva, fundador de uma startup de IA em Coimbra.

E perdem os políticos. O governo português investiu milhões em infraestrutura, marketing e segurança para manter o evento. A ideia era posicionar o país como um hub tecnológico europeu. Agora, o risco é que a imagem de Lisboa como "Silicon Valley do Sul da Europa" se desgaste — e com ela, a atração de outros eventos e investimentos.

O que vem depois?

Se o Web Summit não renovar o contrato após 2026, Lisboa pode ficar sem o maior evento de tecnologia da região. Mas o que acontece se ele voltar? Será apenas uma sombra do que foi? Alguns analistas sugerem que o evento precisa de uma reformulação radical: menos palcos gigantes, mais workshops locais; menos celebridades, mais desenvolvedores reais; menos publicidade, mais conteúdo útil.

Outros dizem que o modelo está morto. Conferências presenciais de massa estão sendo substituídas por comunidades online, eventos regionais e plataformas como Discord e LinkedIn Live. O Web Summit não morreu por falta de dinheiro — morreu por falta de propósito.

As vozes que ainda acreditam

As vozes que ainda acreditam

Entre os críticos, há quem ainda defenda o evento. Carlos Moedas, ex-comissário europeu e ex-prefeito de Lisboa, afirmou em entrevista recente: "O Web Summit não é só um evento. É um símbolo. E símbolos não se abandonam por uma temporada ruim." Ele aponta que o evento atraiu talento internacional para Portugal — e muitos desses profissionais ficaram.

Além disso, a promoção "2 por 1" ainda está ativa no site — um sinal de que a organização tenta manter o fluxo de caixa. Mas isso não é estratégia. É desespero.

Um legado em risco

Em 2016, quando o Web Summit chegou a Lisboa, a cidade mal tinha uma cultura de startups. Hoje, tem centenas, um ecossistema de aceleração e até um programa governamental de visto para empreendedores. Parte disso foi construído com a visibilidade do evento. Mas se ele desaparecer, o que fica? Talvez o suficiente para sobreviver. Talvez não.

A verdade é simples: o Web Summit não é mais indispensável. E quando algo deixa de ser indispensável, ele vira uma opção — e opções são fáceis de abandonar.

Frequently Asked Questions

Por que a participação no Web Summit caiu tanto desde 2022?

A queda se deve a múltiplos fatores: o aumento das alternativas virtuais, o custo elevado de participação, a crise econômica no setor de tecnologia e a perda de confiança na capacidade do evento de gerar conexões reais. Em 2022, havia mais de 70 mil participantes; em 2025, esse número caiu para cerca de 30 mil, segundo fontes internas da organização.

O que significa o adiamento das negociações para 2027?

Isso indica que o Web Summit não está comprometido com Lisboa além de 2026. A organização está esperando para ver se a economia melhora, se a participação recupera e se a cidade oferece melhores condições. Se nada mudar, o evento pode simplesmente se mudar para outro país sem aviso prévio — como permite seu termo de uso.

Como isso afeta as startups portuguesas?

Muitas startups locais dependiam do Web Summit para atrair investidores internacionais. Com menos presença de fundos e menos visibilidade, elas estão tendo dificuldade para levantar capital. Algumas já migraram para eventos menores, como o Slush em Helsinque ou o TechCrunch Disrupt em Berlim, onde os custos são menores e o acesso mais direto.

A cidade de Lisboa ainda se beneficia do evento?

Sim, mas muito menos. Em 2022, o impacto econômico foi de R$2,3 bilhões. Em 2025, caiu para R$900 milhões. Os setores de turismo, alimentação e transporte ainda ganham, mas não mais como antes. O risco é que, se o evento sair, a cidade perca o impulso de atrair novos negócios e talentos estrangeiros que o Web Summit ajudou a trazer.

O Web Summit pode ser cancelado antes de 2026?

Sim. O termo de uso atualizado em abril de 2025 permite que a organização cancele, adie ou reagende o evento a qualquer momento, sem responsabilidade. Isso não é um detalhe — é uma cláusula de fuga. E com a queda na participação, a probabilidade de cancelamento aumenta, mesmo que o site ainda promova a edição de 2026.

Há chances de o Web Summit voltar a ser relevante?

Só se houver uma mudança radical: menos foco em celebridades, mais em conteúdo técnico; menos palcos gigantes, mais espaços colaborativos; menos marketing, mais valor real. Se continuar como está, será apenas um evento de nostalgia — e o mundo da tecnologia não tem espaço para nostalgia.

Comentários (10)

Carla Kaluca
  • Carla Kaluca
  • novembro 20, 2025 AT 10:50

o websummit ta morto e ninguem quer admitir. vi uns 3 stands com gente e o resto era só banner de empresa que nem existe mais. 2026? ta na hora de fechar o site e mandar um e-mail dizendo que foi um bom tempo.

TATIANE FOLCHINI
  • TATIANE FOLCHINI
  • novembro 22, 2025 AT 07:26

eu fui em 2023 e juro que vi mais gente no mercado municipal no domingo do que no evento. agora o pessoal ta trocando por eventos menores tipo o TechChill ou até meetup no Airbnb. acho que o Paddy só queria umas férias na praia e esqueceu de avisar.

Luana Karen
  • Luana Karen
  • novembro 22, 2025 AT 11:08

o Web Summit não morreu. ele se transformou. o que era um circo de influenciadores virou um eco sistema real. hoje, as verdadeiras inovações não acontecem em palcos de 5 mil pessoas, mas em quartos de hotel em Lisboa, onde devs trocam ideias com investidores que não estão lá por branding. o legado não é o evento, é o que ele deixou: startups locais, talento que veio e ficou, e a ideia de que Portugal pode ser parte do jogo global. não é só sobre números. é sobre raiz.

Luiz Felipe Alves
  • Luiz Felipe Alves
  • novembro 23, 2025 AT 01:11

o problema não é o Web Summit, é o modelo de conferência de massa que virou obsoleto. você acha que um engenheiro de IA de 24 anos quer ficar 8 horas em uma fila pra ouvir um cara da Microsoft falar sobre "o futuro da IA" enquanto ele tá codando um modelo de 7B em casa? não. ele quer um Discord com acesso direto ao time, um GitHub com roadmap aberto, e um café com alguém que já fez isso. o Web Summit é o MySpace da tecnologia: bonito no passado, mas ninguém quer entrar mais.

Ana Carolina Campos Teixeira
  • Ana Carolina Campos Teixeira
  • novembro 23, 2025 AT 16:46

A queda na participação é um reflexo da desvalorização do conceito de evento presencial em um mundo hiperconectado. A ausência de valor agregado real, combinada à má gestão de expectativas e à falta de transparência contratual, configura um fracasso estrutural. A cidade de Lisboa, por sua vez, demonstra uma dependência patológica de eventos simbólicos que não sustentam uma economia real. A solução não é reorganizar, mas reconstruir.

Stephane Paula Sousa
  • Stephane Paula Sousa
  • novembro 24, 2025 AT 09:44

o que é verdadeira inovação se ninguém tá ouvindo? o websummit virou um memorial de si mesmo. e o pior? todo mundo que tá falando disso é o mesmo pessoal que foi em 2018 e ainda acha que o mundo gira em torno deles. o futuro é pequeno, local, e silencioso.

Edilaine Diniz
  • Edilaine Diniz
  • novembro 24, 2025 AT 10:20

eu trabalhei em um restaurante que vivia do evento e hoje tá quase vazio. mas vi muita gente nova começando projetos em Lisboa depois que o Web Summit passou. talvez o evento tenha feito o que precisava: abrir a porta. agora é com a gente manter o que ficou.

Thiago Silva
  • Thiago Silva
  • novembro 25, 2025 AT 15:45

o Paddy Cosgrave tá se escondendo atrás de um termo de uso e fingindo que o evento ainda é relevante. isso é o mesmo que um cara que perdeu o emprego e ainda usa o crachá da empresa no bolso. o Web Summit não é um símbolo. é um cadáver com maquiagem.

Gabriel Matelo
  • Gabriel Matelo
  • novembro 27, 2025 AT 10:11

É importante contextualizar: o Web Summit não foi um evento, foi um catalisador. Ele acelerou a maturação do ecossistema tecnológico português, permitindo que startups locais acessassem redes globais, atraíssem talento internacional e construíssem capacidades internas. Mesmo que o evento desapareça, os ativos que ele gerou - redes, conhecimento, cultura empreendedora - permanecem. A questão não é se ele voltará, mas se a sociedade portuguesa terá maturidade para sustentar o que foi construído sem ele.

Luana da Silva
  • Luana da Silva
  • novembro 28, 2025 AT 05:15

2026 vai ser o último ano. o site tá só botando o nome de Brad Smith pra manter o SEO. ninguém acredita mais. o futuro é Discord + YouTube + eventos de 50 pessoas em Porto.

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